Aprender a despedir-se
Enquanto estamos no mesmo caminho é uma das lições mais difíceis do mundo.
Este é um chá das três diferente, mesclado de desabafo e aprendizado.
Quinta feira tive uma pequena amostra do que me espera num futuro próximo.
Enquanto trabalhava na escola, minha mãe passou mal, minha irmã me ligou ou melhor vi uma ligação perdida dela.
Corri para retornar a ligação, coração na mão e um medo absurdo de perder minha mãe.
Até ali, naquele momento, eu não tinha experimentado o medo da perda.
Até aquele dia, esse sentimento tinha gosto de véu nebuloso, repleto de mistério.
E, pensar que há alguns dias me sentia forte, controlado, senhor de mim.
Entretanto, toda essa pose vai por água abaixo quando o sentimento mais íntimo rompe a redoma e deixa a represa escancarada desaguar no caminho até o hospital e lembrar…
Que meu pai morreu há uns vinte e cinco anos atrás, relembro aquele dia onde tive que me espelhar nos outros para poder demonstrar os mesmos sentimentos de meus irmãos.
Agora, com minha mãe, esse sentimento de perda rompe essa barreira, tento me controlar, para poder ser o mais racional possível.
Após ver minha mãe, conversar um pouquinho e prometer retornar mais tarde, deixo-a com um sorriso morno.
Mas e quando ela, minha mãe se for de verdade para o outro lado, como me sentirei e como será a vida sem ela.
Esses pensamentos me invadem enquanto dirijo de volta para o trabalho.
Enquanto atravesso ruas, me perco e percebo, preciso de mais autocontrole para não fazer besteira.
Sinto naquele dia como se fosse uma criança prestes a ser abandonada no mundo.
São tantos sentimentos misturados em pensamentos, triturando a minha vida.
Quando vou buscar minha filha na escola, receio que meus olhos entreguem os sentimentos em ebulição dentro de mim.
Ela me olha, não consigo firmar as vistas e encarar minha pequena é muito difícil.
Como dizer a ela que a vovó está no hospital, como dizer a ela que todos nós podemos desencarnar a qualquer momento.
Quando este pensamento me vem à mente, vejo o quanto ainda não consegui aprender a ter o desapego por aqueles que vão embora.
Minha mãe ainda está conosco, recebeu alta, está forte e fazendo das piadas de humor mórbido o chamariz para me fazer esquecer.
No fundo, minha velhinha sabe o quanto sou apegado a ela.
Agora preciso retomar o controle sobre minhas emoções, não para calá-las, mas para poder compreender e também ensinar a minha filha.
Dou graças a Deus por minha filha amar a avó, ela já entende um pouco sobre as despedidas.
Olhando para minha princesinha percebo o quanto me falta a força da inocência para também entender mais sobre despedidas.
Com minha filha consigo aprender um pouco mais sobre reencarnação e despedidas.
Preciso aprender a me despedir enquanto estou no mesmo caminho.
Despedir -se todo os dias com amor e respeito.


